E, na noite que caía, durante o silêncio da selva que habitava, o rei leão perguntou porque não o amavam.
Fácil seria julgar o rei da selva, por não saberem o que era ser rei. O que era não saber amar os que o rodeavam, o que era não saber quem o ajuda. Quem se sente pouco importante, quem se sente só. Só por não dizermos que o amamos.
Antes disso, era a tarde, caçavam para ele. Porque ele era o rei. E dizem-lhe que avança demasiado depressa, as presas fogem-lhe porque não as sabe abraçar. Já não sabe caçar. Poderia ser um contacto meramente táctil, mas na noite, respirarem todos o mesmo ar, serem todos uma causa comum. Podia ser apenas aquele momento... mas não, era bem mais que isso.
Ele tinha de caçar. Tinha de alimentar o reino, alimentar-se. Doente e velho, o leão não sabia o que fazer. A sua sabedoria resumia-se a ser rei, sempre foi rei. Pediu ajuda, ninguém o ouviu. Gritou, ninguém o quis ouvir. Perto dele, chegou a girafa e disse-lhe ao ouvido: "Nunca ouviste ninguém a pedir-te ajuda?"
Chorou. Sozinho e fraco, subiu ao trono. Pediu a todos os animais que fossem ter com ele, cada um com pedido.
Realizou todos os pedidos, saiu do trono e embrenhou-se na floresta.
As brumas que insistiam em não o deixar ver. O olhar felino, a escuridão ou a falta de alguem. O consolo de saber que fez algo por ele, e por eles. O mais necessário. Por sentir que a noite é mais um obstáculo a ultrapassar, por mais medo que ele tenha.
Acordou, tem medo.
Levantou-se, seguiu caminho pela manhã chuvosa, arrastando-se até onde conseguiu chegar. Não foi rei, mas foi amado, foi abraçado e acarinhado.
Acabou por morrer, algum tempo depois. Aprendeu mais nos ultimos momentos da vida, do que no tempo que governou. É fácil mandar. Difícil é saber porque mandar.
Ser rei, não foi importante. De que vale subir o monte, se depois não somos capazes de olhar para baixo?
Filipa Amado.
PS: "O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesqueciveis, coisas inexplicaveis e pessoas incomparaveis."
- A todos os que se lembram que sei amar, por mais frio que vos faça sentir.
- A todos os que se lembram do EU que gosto de mostrar, sei bem o que sentem. E choro quando me lembro.
-Amo-vos.
-Amo-vos. E sim, sou eu. Estradas do campo, levem-me a casa.